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Sou viciado em computação, Internet e Fotografia. Morei por quase 6 anos, e ainda frequento, Paraty. Sou usuário de softwares Open Source, tendo dado algumas contribuições em diversas ocasiões.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

30 segundos ao sol

Tirei uma tarde quente e ensolarada (muito quente e muito ensolarada) para tentar fazer fotos de longa exposição ao sol.

Note o barco borrado, e a mureta e o fundo nítidos.

O truque para conseguir isto é usar vários filtros, ISO 200 e diafragma bem fechado (F22).

Usei um filtro Cokin A005 - que mesmo não sendo um ND, fez o efeito de um ND 8 (Era o que eu tinha disponível.) - e mais dois filtros polarizadores lineares (não circulares). Os filtros polarizadores criam um filtro ND ajustável, coisa que se mostrou muito importante, mas com os seus efeitos colaterais.

Lente com os dois filtros polarizadores e o filtro Cokin ND.

O primeiro filtro polarizador tira metade da luz, assumindo que toda ela está aleatoriamente polarizada, só deixando passar uma polarização. Uma das propriedades da luz polarizada é poder ser desmembrada novamente em duas polarizações diferentes em ângulos de 90 graus entre si, tendo como resultante a luz polarizada original, e é esta propriedade que é usada no segundo filtro polarizador. O segundo polarizador desmembra a luz polarizada em duas, e anula uma delas, pela propriedade acima. Dependendo do ângulo entre os filtros, o segundo filtro anula quase nenhuma até quase toda luz que chega nele. Assim temos um filtro ND ajustável.

Quando em perfeita "contra-fase", ou quase, eles anulam quase toda a luz que entra, mas observei neste par, e em outro par de filtros uma propriedade estranha, um desvio para o azul, como mostrado abaixo:

Imagem JPEG tal como saiu da câmera.

Acho que os fabricantes de filtros não se importam com a sobra de luz azul que passa pelos filtros, pois além de ser pequena (só perceptível sob forte atenuação usando dois filtros), muitas vezes os filtros são usados para fotografias do céu azul.

Eu não tive problemas de vinheta, mesmo usando tantos filtros, mas acho que foi por que eu estava usando uma lente FX em uma câmera DX. Acho que se estivesse usando uma lente DX na minha câmera, ou uma câmera FX com lente FX, teria tido problemas com vinheta.

Existem mais algumas dificuldades para fazer isto, como conseguir ver o LCD no sol, então tive que me guiar basicamente pelo histograma, que já era difícil de ver. O foco era impossível, e a solução era girar os filtros para entrar mais luz, fazer o foco pressionando o botão até a metade, desligar o autofoco, girar o filtro para atenuar de novo a luz, mas com cuidado para não atenuar demais, pois azularia a imagem. A outra solução seria usar a distância hiperfocal da lente, mas preferi usar o autofoco.

A câmera estava no modo manual, e a barra de indicação de exposição do visor era uma das coisas que eu estava usando como referência. Mas a intensidade luminosa dela dependia da leitura do fotômetro, i.e., conforme eu escurecia a imagem, as informações mostradas no visor se apagavam, até se tornarem invisíveis.

O tempo escolhido foi de 30 segundos, mas foi na base de fotografar e tentar ver o histograma. A luz ambiente impedia de ver adequadamente o LCD. Este é um grande problema das DSLRs que as Ultra Zoom resolvem sem problema (Numa Ultra Zoom eu posso rever a foto no visor.). As primeiras tentativas foram de 15 e 8 segundos, mas a conclusão foi usar 30 segundos, que mesmo que ficasse superexposto, desde que não estourasse, daria para consertar numa edição.

Eu estava em um processo de testes e aprendizado, como pode-se notar no texto. Era a primeira vez que eu usava tal nível de atenuação de luz.

Tal como saiu da câmera, com 8 segundos de exposição. Este foi um dos primeiros testes. Este tom sépia pode ter sido resultado do filtro Cokin A005.

Depois de uma rápida edição.

Em algumas tive pedestres passando, mas eles foram atenuados a ponto de desaparecerem. Esta é uma das vantagens de tempos de exposição tão longos.

Junto da Praça da Bandeira, Centro Histórico de Paraty. Esta foi a primeira foto de 30 segundos e exposição. Foto editada. Tem um pedestre borrado, pois ficou muio tempo quase na mesma posição.

Esta não foi editada. Ela está tal como saiu da câmera. Quase boa. Tem um pequeno desvio de cor no branco, que pode ser resultado do filtro. Dá para notar os barcos borrados ao fundo. Isto é característico de longa exposição.

Depois de editada. Este é um dos casos que a foto sai perto de um bom resultado da câmera, mas isto não acontecia sempre. Talvez se o filtro fosse um ND de verdade eu nem precisasse editar.

Em alguns casos a foto saía quase boa da câmera, mas em outros não. Uma das razões disto era o foco. Como tinha que desfazer a atenuação para usar o autofoco (o truque do laser pointer não funciona ao sol), eu não conseguia acertar precisamente o ponto, mas fui melhorando conforme ia fotografando.

Esta abaixo "acertei" baseado no histograma, mas foi terceira tentativa:

Está um pouco superexposto, tal como saiu da câmera, mas as cores estão quase certas. A primeira tentativa foi mostrada anteriormente, com a imagem muito azulada, que é efeito colateral de muita atenuação. Quanto mais próximo do correto melhor.

E edição fluiu quase que sozinha. O ufraw acertou sozinho quase todos os parâmetros.

Esta saiu um pouco superexposta, mas a câmera indicava que não tinha perda, que não tinha nada estourado. A edição consertou a superexposição facilmente. Note os borrados dos barcos se movimentando e o espelho turvo da água, características de longa exposição.

Segundo o ufraw, esta foto estava meio ponto subexposta, mas resolvi não seguir a sugestão dele, como também fiz uma pequena modificação no equilíbrio de branco. (direitos do fotógrafo). Dá para notar o fundo e a mureta nítidos, mas os barcos estão borrados de movimento. Este é um dos poderes de uma imagem de longa exposição, gerar imagens confusas, que desafiam um pouco a realidade do dia a dia, mas usando a realidade do dia a dia.

Mais um pouco de Making of.

Conforme fui fazendo, fui aprendendo e a taxa de acerto foi aumentando, tal como a agilidade para resolver o problema de foco etc. O histograma foi muito importante para o acompanhamento das fotos.

Esta está exatamente como saiu da câmera, sem edição. As fachadas voltadas para o sol ficaram um pouco estouradas, mas pode-se dizer que está quase perfeita. O filtro Cokin A005 afetou pouco.

Na tentativa de corrigir o estourado das fachadas atenuando mais a luz com os polarizadores errei a dose e fiquei com esta imagem azulada. Os filtros atenuaram quase toda a luz, só deixando passar um pouco do azul.

Mas depois de editar, temos a imagem abaixo:

A imagem azulada depois de editada.

O inconveniente é que o multiplicador do vermelho ficou por volta de 4, o que implica em uma perda de faixa dinâmica em 2 EV e maiores chances de aparecerem ruídos. Por isto que a exposição deve ser o mais equilibrada possível entre as cores.

Depois fui para o cais e a praia da Terra Nova.

A edição deste foi simples. Aceitei as sugestões do ufraw. Mas o que saiu da câmera, de novo, estava quase bom. Pode-se ver os barcos borrados de movimento.

Observem o efeito no mar, na borda da água com a areia. Não aparecem ondas, só uma forma turva gerada pela longa exposição. Esta foto foi editada, mas a que saiu da câmera estava quase boa.

Aumentei a atenuação e obtive uma foto um pouco azulada, que depois de editada resultou na abaixo:

Segundo o ufraw, esta foto estava subexposta em 2 pontos, o que implica que a exposição deveria ser de 2 minutos, mas consegui mais detalhes do céu com boa facilidade.

O pouco azulado não implicou em multiplicadores das cores muito díspares. Quando a imagem se torna muito azulada os multiplicadores ficam muito diferentes, o que pode facilitar o aparecimento de ruído em uma das cores e causa perda de faixa dinâmica.

Só para ter uma ideia de como seria uma foto em F22 e ISO 200 neste sol, fiz uma sem os filtros. O tempo de exposição foi de 1/125 s. Segundo a tabela Sunny 16, este tempo de exposição deveria ser um pouco menor, 1/100 s. Isto dá uma ideia de quanto o sol estava forte. A foto está abaixo:

Foto de referência. F22, ISO 200 e 1/125 s.

Esta foto também indica o nível de atenuação de luz que eu estava lidando nos filtros, que era na ordem de 12 EV, i.e., 1/4000 da luz original da cena. Os filtros atenuavam aproximadamente 99.975% da luz da cena, e até mais em alguns casos.

Conclusões

Como era a primeira vez que eu fotografava com tal nível de atenuação, eu ainda estava aprendendo muitas coisas conforme fazia. Já tinha feito antes com dois filtros polarizadores, e já tinha notado o desvio para o azul quando acentuava muito a atenuação (Com outro par de filtros na minha FZ28 foi o desaparecimento do verde.), mas aqui lidei com isto muitas vezes, pois queria trabalhar no limite.

Sei que faltou a foto mais clichê de todas de longa exposição diurnas, uma cachoeira, mas não tinha nenhuma no Centro Histórico de Paraty para eu fotografar (rsrs).

Se tivesse usado um filtro ND de verdade, possivelmente não teria que editar algumas das fotos, mas um simples ajuste no equilíbrio de branco na edição estava resolvendo o desvio de cor do filtro.

Uma das piores partes foi justamento o sol e o calor. Carregar o equipamento no sol e no calor foi exaustivo. Senti falta de um sombreiro. Isto faz com que a fotografia de noite pareça fisicamente fácil.

Não sei se vou transformar isto em um projeto, se vou fazer fotos assim rotineiramente, mas já sei como fazer e lidar com a situação se for necessário.

Notas

As fotos de making of foram feitas com uma Panasonic FZ28. Todas as outras fotos, exceto quando mencionado em contrário, foram com 30 segundos de exposição, ISO 200 e F22.

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