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Sou viciado em computação, Internet e Fotografia. Morei por quase 6 anos, e ainda frequento, Paraty. Sou usuário de softwares Open Source, tendo dado algumas contribuições em diversas ocasiões.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O analfabetismo da mensagem instantânea

Parece que estamos assistindo a um novo renascer do analfabetismo. Ele tem características próprias, mas se mistura com outras formas. Parte dele é incentivado pelos sistemas de mensagens instantâneas. Como uma amiga minha uma vez me falou: "MSN emburra.".

No tempo em que comecei a usar Internet quase não existia mensagem instantânea. Os principais protocolos de mensagem instantânea eram IRC, Talk e VAX Phone. O Talk foi abandonado e acho que só rodava nos Unix, o VAX Phone só rodava nos sistemas DEC VMS. O IRC era bem usado, e continua existindo até hoje. Mas o principal meio de comunicação eletrônico era o e-mail, que se comporta como uma carta. Então o que se escrevia tinha princípio, meio e fim, e se escrevia com cuidado suficiente para se garantir o entendimento do outro lado. Quando se procurava fóruns para tirar uma dúvida, tinham os da Usenet e similares, usando o protocolo News, e as listas de discussão por e-mail, e em ambos os casos se escrevia como uma carta, com os cuidados para ser entendido.

Era praticamente mandatória a leitura da Netiqueta para se usar a Internet a 15 anos atrás. Atualmente a maioria nem sabe que isto existe.

Muita gente que não sabia escrever uma carta aprendeu no tempo do e-mail. Teve que aprender. Teve que se acostumar com cartas.

Com o surgimento da mensagem instantânea, a forma predominante da comunicação pela Internet mudou. A mensagem instantânea é legal, para manter conversas em tempo real, mais rápidas, mais dinâmicas, mas muito prejudicial por alguns lados. Ajudou as pessoas, os novos usuários de Internet a escrever mal, pois se o outro não entendeu, ele pergunta e a mensagem é refeita. Desapareceu a preocupação de escrever bem de primeira, pois a mensagem pode chegar rápido, tem que chegar rápido, tem que sair rápido. Se escreve apressadamente, sem cuidados com regras de ortografia, de gramática, de pontuação. Se vê muita abreviação, muito emoticom (ou coisas mal feitas se passando por eles), muita abreviação errada como "ksa", "ksado". Surgiu um dialeto anômalo chamado internetês.

O twitter, com o seu espaço reduzido para mensagens, só vai piorar as abreviações e a "simplificação" das mensagens.

Nessa pressa, nessa "simplificação", são abandonadas regras básicas, como pontuação, concordância, verbos e conjugações verbais, e até mesmo a estrutura básica das frases, orações etc.

Como os jovens, e usuários recentes, usam muito mais as mensagens instantâneas, as mensagens curtas, e eles se acostumam a escrever assim. Eles passam a pensar assim, como se tudo fosse uma conversa. Eles passam a estruturar as suas mensagens e a sua forma de pensar assim. Quando entram em fóruns, se comportam assim. Não pensam que estão falando com estranhos, e que no meio pode ter só alguns que o conhecem, se tanto. Não tem a consciência de ser claro, de escrever para ser entendido.

Muitos destes não sabem dar um título para o que escrevem, pois faz parte do processo mental dele sair escrevendo, sem ter a ideia razoavelmente organizada em mente, o que é necessário para compor um título coerente para a mensagem. Aí usam "títulos padrão", que não dizem nada de útil, como: "Me ajudem aeeeeee...", "Socorro...", "Por favor, me ajudem...", "Pleaseeee...", "Preciso de um Help" etc. Se ele está mandando uma mensagem para um fórum, e/ou para uma lista de discussão, já tem uma boa chance de precisar de uma ajuda. Se o título, o assunto, já dá uma ideia do conteúdo, chama a atenção de quem pode responder melhor, e aumentam as chances de ter a resposta correta em um tempo menor.

Alguns escrevem de forma muito errada, e ainda reclamam quando são criticados por isto. Só por que os amigos dele entendem o dialeto dele no MSN, ele acha que todos entendem, ou tem obrigação de entender. Para piorar, se sentem ofendidos quando são criticados por esta atitude. O que me choca é que ainda existe gente que defende o direito dele ser assim.

Em um texto curto mal escrito, sem pontuação, como uma única mensagem de MSN, ainda é possível separar as orações e fazer algum sentido, mas em um texto longo, composto de muitas frases e parágrafos, sem a devida pontuação, sem o devido cuidado com a língua, ainda com erros de concordância, conjugação verbal etc, já não é mais possível entender. É capaz que nem os amigos do autor do texto entendam o que está escrito nele, e talvez nem mesmo o autor do texto depois de alguns dias.

Quando se escreve algo, pressupõe-se que seja para ser entendido na hora, depois, e sempre, então tem que ser bem escrito, da melhor forma possível, sempre.

Não falo só de pessoas de baixo nível de instrução, como as que escrevem "fasso", mas tem gente com um nível de instrução razoável agindo assim.

O meu português não é perfeito, mas acho que é bom, talvez acima da média, pela quantidade de casos que "mais" sendo usados no lugar de "mas", dos "para mim fazer" que vejo.

Eu costumo reler o que escrevo, mesmo que seja uma mensagem de MSN, para ver se errei algo, se faz sentido. Sempre que possível, uso verificador ortográfico, como agora mesmo, no meu Firefox.

Eu já mantive conversas por e-mail, sendo que em uma delas eu contei 17 e-mails trocados com um amigo meu em um dia, com vários assuntos em paralelo sendo tratados. Eu brinquei chamando de mail-chat. Eu já vi listas de discussão tão ativas que tinham mais de 200 e-mails por dia, e parecia um chat, um bate-papo. Nisto eram tratados vários assuntos ao mesmo tempo, em tópicos diferentes, e vários assuntos no mesmo tópico. E não se usava um português ruim como se vê facilmente hoje em dia.

Está surgindo uma geração de "analfabetizados pela Internet". Pessoas com pressa de escrever, escrevem sem pensar, sem organizar a ideia. Só vão soltando as palavras. Não releem o que escrevem. Mal conseguem compor uma frase na cabeça, muito menos organizar um texto de alguns parágrafos. Isto pode ser uma deficiência na educação, no processo de alfabetização, que não termina no primeiro ano de escola, ao contrário do que muitos pensam. Sei que este problema está sendo potencializado pelos sistemas de mensagem instantânea, pois dá ferramentas para isto.

Será que os pais e educadores estão cientes deste processo de "analfabetização pela Internet"?

2 comentários:

  1. J. Goffredo,
    muito bom o seu texto e tenho também percebido essas atrocidades na internet. Parece-me que as pessoas estão com preguiça de pensar no outro, de como a mensagem será recebida pelo seu receptor. Engolem o português na pressa de se fazerem ouvir.
    Vejo muito isso em comentários de blogs e portais na internet. É a degradação da língua em seu máximo.
    Jaciara Morgado

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  2. É rapaz, faço questão de escrever em perfeito português e perfeita construção de frases (e pensamento) em todas as mídias. Comunicação própria não tem preço... ;)

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